Juliano Rosa: A Encruzilhada Entrevista

Leia a entrevista do nosso guitarrista Juliano Rosa no site A Encruzilhada.



A Encruzilhada: Juliano, como foi o seu primeiro envolvimento com a música? Qual foi o pontapé inicial para a sua trajetória? Juliano Rosa: Venho de Portão, uma cidade do interior do Rio grande do Sul, localizada a 50 km da capital, Porto Alegre. Eu sou um músico autodidata. Desde criança, sempre fui muito musical, cantava e batucava tudo que eu ouvia. Meu irmão mais velho fazia aulas de violão e eu ficava só observando. Ele logo desistiu do instrumento, que ficou um tempo largado pela casa. Assim, quando eu tinha uns 9 ou 10 anos, comecei a pegar aquele violão e aprendi a tocar sozinho lendo os cadernos de música do meu irmão. Aliás, tenho esse violão até hoje e coloquei um captador para usar quando toco slide. No início dos anos 90, com 13/14 anos, já tocava em uma bandinha de garagem com alguns amigos. Nessa época, ainda antes da internet, o acesso à música, equipamentos e instrumentos era muito restrito, especialmente para quem morava no interior. Aprendi tudo de ouvido com discos que algum amigo emprestava, gravando em fita cassete o que tocava nas rádios e olhando como os caras tocavam nos videoclipes da MTV. Eu também tinha alguns amigos músicos mais velhos que davam umas dicas. Com 15 anos já tocava nos barzinhos, sendo que tocava na única banda de rock da cidade e era praticamente o único guitarrista do estilo em atividade. Ao mesmo tempo, já dava aulas de violão e guitarra para a molecada e até alguns marmanjos da região. Ainda na adolescência, formei outras bandas de rock e gravei um CD autoral instrumental totalmente em casa, numa época em que só era possível gravar em estúdio. Com 18 anos toquei e gravei disco com uma banda de baile conhecida do interior do RS, uma escola que me trouxe muito aprendizado e experiência. Logo eu comecei a me frustrar com a música, porque o estilo que eu gostava não dava grana e porque era muito difícil achar parceiros com a mesma vontade e condições de fazer um trabalho legal. Eu já compunha e queria fazer minhas músicas, mas as pessoas só queriam ouvir o que passava na TV. Passei um tempo ainda dando aulas, até que parei com tudo e passei alguns anos longe da vida como músico profissional. Logo após me mudar para para Porto Alegre, em 2005, voltei a formar bandas com amigos, estudei violão clássico e passei a me dedicar novamente à guitarra.



AE: Além da paixão pela música, houve algum outro motivo para voltar aos palcos quando se estabeleceu em Porto Alegre? JR: Na capital ficou mais fácil encontrar pessoas com afinidades musicais parecidas, a cena é mais profissional e tem muito mais acesso a equipamentos, instrumentos e informação. Frequentar lojas de discos e de instrumentos foi um grande incentivo. Nessa mesma época comecei a usar mais a internet, já tinha Orkut e as comunidades de música, guitarras e afins. Descobri muita coisa nova e fiz muita pesquisa de instrumentos e equipamentos também. Com a facilidade de comunicação da internet e morando num grande centro, tudo ficou mais fácil e atraente.

AE: Você disse que na adolescência já tocava e curtia bastante o Rock, mas e o Blues? Quando ele entrou na sua vida? JR: Na infância e adolescência, curtia mais rock mesmo, mas como as informações chegavam de qualquer jeito, já tinha ouvido, mas não sabia direito o que era blues. Já tinha ouvido Muddy Waters, Robert Johnson, B. B. King e outros vários, mas tudo era música sem rótulo. Após o período de adolescência, onde curtia muito mais rock pesado, o estudo da música me levou à música instrumental, rock progressivo e fusion. O interesse pelo blues veio naturalmente como uma volta às raízes. Por volta de 2010 eu participava de uma banda com bons músicos, tocando Rush e coisas mais complexas, até que o baterista me falou que estava já cansado de tocar tudo “cronometrado” e “certinho”. Não queria mais saber das músicas cheias de virtuosismo, que ele queria tocar algo mais tranquilo com improvisos para curtir. Eu topei a ideia na hora e foi aí que surgiu o Hard Blues Trio. O baterista era o Alex Haas, que hoje mora em Curitiba, e o baixista era um amigo de infância dele, o 150. O “blues” que a gente tocava era o do Eric Clapton, Jimi Hendrix, Steve Ray Vaughan e companhia. Eles queriam que o nome da banda fosse “Juliano Blues Trio”, mas eu cheguei com outras sugestões e Hard Blues Trio foi escolhido. Com essa formação fiz alguns shows na cidade e comecei a conhecer a galera que curtia blues e comecei a entender o que era o blues de verdade. Fui atrás das raízes e da história, dos verdadeiros representantes do estilo e até hoje ainda busco conhecer mais. Desde então também me voltei mais aos timbres vintage de guitarras e amplificadores, uma paixão que é quase uma obsessão. Fiz amizade e parceria com músicos e fabricantes de instrumentos especializados nesse som, como o Andy Serrano, que faz os amplificadores Serrano, e o Solon Fishbone, que faz as guitarras Guitar Garage. Pude ter contato com grandes artistas que tocam blues no Brasil e com legítimos bluesmen americanos e aprendi muito com todos eles, especialmente a respeitar o blues e sua história. Me considero um aprendiz e um mensageiro do blues, mas não nego a minha própria formação. Sou um músico do meu tempo, também gosto de tocar outros estilos e estou sempre estudando música e guitarra, mas o blues está aqui sempre comigo.


AE: Já são dez anos de Hard Blues Trio! Houve alguma mudança na banda, desde o primeiro ensaio até hoje? JR: Na verdade o nome surgiu mesmo já em 2012, então ano que vem serão 10 anos! A formação da banda sofreu algumas mudanças sim. No início era eu (guitarra/voz), Alex Hass (bateria) e 150 (baixo), em 2013 entraram o Giovani Ouriques (bateria), da banda Taxi Free, e o Jailson Tavares (baixo), que tocou comigo em várias bandas desde a adolescência. Com essa formação a banda ficou mais conhecida no RS e chegamos a lançar um EP gravado ao vivo com uma música autoral, I Gotta Play My Blues, tocando em rádio e TV. Conflitos de agenda nos levava a buscar baixistas substitutos, entre eles Sergio Selbach, da Ale Ravanello Blues Combo, chegou a tocar vários shows com a gente. No início de 2015 eu já namorava a Dani Ela, que começava a se destacar na música. Ela acompanhava nossos shows e dava canjas como cantora. Durante este ano ficamos definitivamente sem baixista, eu comecei a ensinar a Dani a tocar baixo e no final de 2015 ela já era a baixista da banda. Nesta época fizemos a música Porto Alegre Blues, que tocamos até hoje, mas nunca foi gravada/lançada oficialmente. Dani Ela evoluiu rapidamente no instrumento e logo assumiu também a voz principal. Com as mudanças no som e atitude da banda, começamos a buscar um novo baterista no início de 2016. Alexandre Becker, que é tio da Dani, entrou para completar o time trazendo a sonoridade e versatilidade que consolidou o Hard Blues Trio. A formação definitiva (Juliano, Dani e Alexandre) trouxe a conexão necessária para compor e gravar o primeiro álbum totalmente autoral, Pé na Estrada, lançado em 2017, que levou a banda a ficar conhecida no Brasil e exterior.

AE: Como foi a experiência de gravar um álbum autoral e quais foram os maiores desafios ao realizar esse projeto? JR: A experiência é sempre muito rica no processo de compor, arranjar, gravar e produzir um álbum. Sempre um aprendizado. A banda já estava bem entrosada e as composições prontas, então os maiores desafios foram o orçamento e encontrar os profissionais certos para gravação e produção. No Brasil tudo é caro e mais difícil, mas conhecer as pessoas certas ajuda muito. Tivemos a sorte de ter profissionais competentes no projeto, que teve produção musical de Mateus Borges e participação dos músicos convidados Luciano Leães, Gonzalo Araya e Diego Dias. Trabalhamos muito para chegar na sonoridade desejada em todas as faixas. A captação dos sons de todos os instrumentos tiveram atenção especial aos timbres e ambiências. Depois de pronto, o desafio é a divulgação e fazer chegar no ouvido das pessoas. Este trabalho não acaba nunca.


AE: E como foi a recepção do público para o álbum da banda? JR: A recepção foi a melhor possível, tanto do público do blues quanto do rock, o que nos deixa muito felizes. O álbum nos levou a rádio e TV no Brasil e do exterior, inclusive músicas em português, como Véio Bruno, tocaram mais no exterior do que as músicas em inglês. Growin’ Up ainda é uma das preferidas do público, seguida da faixa título, Pé na Estrada, ambas com videoclipe rodando na TV.

AE: Toda essa exposição positiva nos meios de comunicação trouxe alguma mudança para a rotina da banda? Surgiram mais convites para shows e festivais? JR: Com certeza. Após o lançamento do álbum a banda passa a existir de fato e a presença nos meios de comunicação desperta o interesse do público e de contratantes. Ter um trabalho autoral com boa aceitação nos colocou em festivais e eventos de nível nacional. Já são três participações no Mississippi Delta Blues Festival, maior festival de blues da América Latina, nas edições de Caxias do Sul, Rio de Janeiro e na última edição online em 2020.

AE: Por falar em 2020, quais foram as grandes dificildases enfrentadas por vocês nesse ano tão atípico e o que fizeram para manter o trabalho em alta? JR: A maior dificuldade foi o cancelamento de shows e eventos. Nós estávamos com uma agenda sempre fechada em casas locais aqui em Porto Alegre com shows semanais que garantiam uma renda importante para os músicos da banda, além de outros eventos e festivais que foram cancelados. O último show que fizemos foi na primeira semana de março e logo parou tudo. Ter um trabalho autoral já encaminhado e marcar presença constante nas redes sociais foi importante para manter o contato com o público e abrir caminhos. Participamos de lives e festivais online. Em 2020 também lançamos o single “Missed The Train”, que já estava gravado e terminamos de produzir no início do ano. O lançamento já estava programado para abril e ocorreu de forma online com a divulgação da música e videoclipe nas plataformas digitais. O trio ficou separado de março até julho. Eu e Dani, que moramos juntos, lançamos a dupla Old Jules & Dani Bee e nos apresentamos em vários canais online. Lançamos também o single, “2020: Perigo Invisível”, que está nas plataformas com a participação do gaitista chileno Gonzalo Araya. Em julho Hard Blues Trio se reuniu pela primeira vez desde março no estúdio, o que era para ser somente um ensaio, mas acabamos gravando na hora uma música nova que eu compus de brincadeira para o dia do rock. “Escuta esse Rock” acabou virando single gravado ao vivo no estúdio, fizemos videoclipe caseiro e chamamos vários amigos e fãs que aparecem no clipe cantando o refrão. Essa música sem querer acabou nos levando mais longe e conquistando o público de rock que não nos conhecia fora do RS. É uma das mais tocadas hoje no Spotify. O foco maior no trabalho autoral com maior alcance de público é com certeza um ponto positivo de 2020.


AE: Você falou desse novo projeto, Old Jules & Dani Bee. Pretendem manter os dois para o futuro ou foi algo circunstancial? JR: A dupla vai continuar. Estamos participando com frequência de programas ao vivo na internet, como o Boteco do Gaspo. Estamos planejando um video novo com uma de nossas versões musicais nas próximas semanas e já temos autorais para gravar em breve nos intervalos de lançamentos do HBT. Old Jules & Dani Bee sempre existiu, mas não tinha um nome definido. Já costumávamos frequentar eventos em dupla quando o trio não estava trabalhando, assim evita a confusão quando nos chamam para canja anunciando um trio e só aparecem dois músicos.

AE: Qual a expectativa para esse ano? Podemos esperar um 2021 de muitos lançamentos em seus dois projetos, certo? JR: Já estamos trabalhando com HBT para o lançamento de um novo single/audiovisual para sair no segundo semestre deste ano. A música já está pronta e já apresentamos ao Luciano Leães, que assinará a produção musical. Estamos decidindo como será a gravação. Também estou em contato com Zé Carlos de Andrade para a produção visual. Agora em fevereiro apresentamos o novo release da banda escrito por Márcio Grings, que já está sendo atualizado nas nossas redes e no nosso site, que também está de cara nova preparando para o próximo lançamento do trio. Pretendo lançar algo da dupla Old Jules & Dani Bee, se der tempo, um single, senão alguns videos interpretando nossas versões de clássicos, mas o foco principal é o lançamento da HBT.

AE: Muito bacana, Juliano. Fico muito agradecido por ter topado a entrevista. Quer deixar um recado final para o público ? JR: Eu que agradeço pelo convite, tenho acompanhado o trabalho da Encruzilhada na divulgação de artistas e fico muito feliz em estar junto. Parabéns pela iniciativa e contem com a gente. Deixo meu agradecimento a todo mundo que está acompanhando o trabalho do Hard Blues Trio e Old Jules & Dani Bee e fica o convite para quem ainda não conhece procurar e seguir nas redes sociais, se inscrever no nosso canal no Youtube e ouvir nosso som nas plataformas. Esse apoio é importante para fortalecermos a cena. Aguardem as novidades! Um grande abraço em nome de toda nossa equipe. Muito obrigado!


https://aencruzilhada.com.br/

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